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Como o design pode ajudar os governos

Recentemente a Gisele Raulik-Murphy me encaminhou uma mensagem no Facebook indicando um texto do The Guardian. Para quem quiser ver a versão original, basta clicar no link abaixo. Tomei a liberdade de traduzir o texto e colocar aqui no site da ProDesign. Me desculpem pela tradução um pouco tosca, mas o conteúdo é de grande valor. Vejo que mais do que nunca, precisamos parar de reclamar dos lobbies de outras profissões e começar a articular e por que não, gerar lobistas para que o design tenha seu devido valor. Sem exageros, o design pode tornar uma ferramenta de transformação do país.

O link é: http://apps.facebook.com/theguardian/artanddesign/2011/oct/11/government-planning-designers-finland

Segue minha tradução.

Abraço.

Tulio Filho

Mr. Cameron, é hora de trazer os designers para dentro.

Se um país tem o melhor sistema de educação do mundo, poderia ser perdoado por descansar sobre os louros. No entanto, a Finlândia, que rotineiramente está no topo do ranking de educação da OECD – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, recusa-se a fazê-lo. O país tem outras questões importantes na agenda, como a busca pela neutralização do carbono e o fato do rápido envelhecimento da população – processo mais rápido na Europa. E quando a nação quer responder a estas questões, isto se transforma no SITRA, o Fundo de Inovação Finlandês. A maioria dos governos têm um conjunto de usinas de ideias e grupos políticos à sua disposição para enfrentar os desafios de seu país. Mas o que é diferente sobre o SITRA é que ele usa designers.

A unidade de Design Estratégico do SITRA é composta por uma equipe internacional com experiência em arquitetura e urbanismo, web e design interativo, e eles estão acostumados a pensar em escalas variadas – do pixel até a cidade. “Design estratégico” ainda é uma disciplina nova, mas, em poucas palavras, significa a aplicação de um método de projeto para um sistema, ao invés de um objeto. Assim, designers de carros criam objetos elegantes, mas produzi-los exige um sofisticado sistema de manufatura, de modo que tudo, desde o motor a um puxador da porta pode ser entregue de maneira precisa. Se você fosse redesenhar esse sistema – ou mesmo a mais ampla rede de concessionárias, estradas e postos de gasolina em que ele está conectado – você chamaria isso de design estratégico.

O interessante sobre a unidade de design estratégico (SDU) é que leva esta abordagem a questões de política pública. Em particular, observa as grandes mudanças sociais e econômicas que os governos, inclusive o inglês, estão lutando para lidar. Quando os sistemas de bem-estar e saúde estão no limite, porque há menos receita de imposto e o envelhecimento da população exige mais cuidado, como você pode fazê-lo funcionar? A resposta está em parte nas minúcias de, digamos, como você entrega comida para os idosos, mas também em escala macro. A SDU buscou repensar o “contrato social”. Você permite que as pessoas trabalhem menos e contribuam para a sociedade de outras formas, como o tempo parcial de trabalho voluntário? Parece algo como “Big Society” de David Cameron, mas no Reino Unido não havia detalhes sobre como isso iria funcionar, apenas a expectativa irrealista de que todos poderiam fazer mais.

Enquanto o design estratégico não pode necessariamente encontrar a resposta perfeita, pelo menos, começa por fazer as perguntas certas. Por exemplo, o que há de errado com o sistema de educação finlandês? A única falha que o governo poderia encontrar era no que ela percebeu ser um alto nível de abandono – pasmem, apenas 50 alunos por ano. O governo acreditou que se pudesse recuperar os “estudantes perdidos”, teria aperfeiçoado o sistema. A SDU apontou que este era o caminho errado de ver o problema: os 50 alunos são um sintoma precoce de mudanças na Finlândia. Com a imigração crescente, a sociedade finlandesa está diversificando e vai ter que criar um sistema educacional construído não na homogeneidade e consenso cultural, mas na diversidade e não-conformidade. E isto não está ligado apenas à educação, mas também à política – o truque para a Finlândia está em como incorporar vozes de fora.

Outro tema na agenda do SITRA é a distribuição de alimentos. Como é que você dá a produtores de alimentos orgânicos locais uma vantagem em um mercado competitivo cheio de multinacionais? Não é fácil para os pequenos fornecedores obter um espaço quando os supermercados deixam as melhores áreas do varejo para a grande indústria de alimentos. Isto é ainda mais forte no Reino Unido, onde as ruas são dominadas por cadeias de supermercados. Lá, o lema parece ser “Construa e oTesco (rede de hipermercados) virá”. A resposta do SITRA é projetar um sistema que conecte os produtores de alimentos orgânicos.

É verdade que esperamos esse tipo de coisa dos ricos países nórdicos, com sua população pequena e democracias sociais intactas. Mas o que fazer sobre o Reino Unido, que é maior e mais confuso? Com o governo britânico trabalhando em torno de idéias similares, não é de admirar que encontrou o SITRA. Em Londres no mês passado – quase despercebida na agitação do London Design Festival – o SITRA lançou um livro intitulado “ In Studio: Recipes for Systemic Change”. Posteriormente, os autores fizeram uma visita ao escritório do gabinete britânico, onde haviam sido convidados para explicar as idéias por trás do design estratégico. Afinal, um dos maiores problemas enfrentados pelo governo do Reino Unido (na verdade, qualquer governo) é a lacuna entre a política e como ela é realizada. Você pode reformar o serviço de saúde, mas se o paciente ainda tem uma espera de sete horas para ser consultado no hospital, o sistema está falhando.

Muitas vezes, as políticas que parecem eficazes em papel, podem ter resultados perversos. Colocar um teto sobre quotas de pesca resultou em pescadores despejarem toneladas de peixes mortos de volta à água. Estes resultados são falhas do processo de implementação de políticas. Exemplos de sucesso seriam o cartão Oyster do sistema de metrô de Londres ou o esquema da cidade para alugar bicicletas – ambos, talvez não por coincidência, sistemas onde os designers mantiveram a experiência do usuário em mente o tempo todo.

Um dos problemas é que os políticos tratam de princípios gerais e, em seguida, pedem a burocratas para preencher os detalhes. Isso é problemático quando se estende por vários departamentos e estruturas de financiamento, como as questões ambientais costumam fazer. Quem pode ver o processo através da idéia inicial até o objetivo final? Isso é algo praticado apenas pelos designers. No SDU, eles descrevem isso como um processo de eficácia. “Bons designers são muito hábeis em manobrar uma equipe a partir de um esboço para um resultado sem perder de vista a visão ao longo do caminho”, diz Dan Hill, que se juntou à SDU.

No mundo dos negócios, há abundância na oferta de consultorias de design para reformulação de sistemas e melhorias na experiência do cliente – que eles chamam de “design thinking “. No entanto, elas estão cada vez mais desacreditadas por suas promessas vagas dos executivos “pensarem como designers”. Design estratégico, no entanto, não se trata apenas de pensar, mas sobre como trazer esse pensamento para um resultado eficaz. Isso não significa que a contratação da McKinsey ou Ideo para fazer uma consultoria, significa ter um profissional de design incorporado no processo. A Apple é um caso em questão: o seu projetista-chefe, Jonathan Ive, faz parte do conselho. Não é coincidência que, enquanto a Nokia teve a tecnologia touchscreen antes da Apple, esta última foi a primeira a transformá-la em um produto e transformar esse produto em um fenômeno.

Se o governo do Reino Unido leva uma lição da Apple, deve ser essa. No entanto, a probabilidade é que o governo procure incluir o design estratégico em tudo porque quer cortar custos, e não melhorar os serviços. Se assim for, está míope. A lição da Finlândia, que buscou reformar o seu sistema de ensino enquanto ele ainda era o melhor do mundo, é que você faz essas coisas para seu próprio bem. Design estratégico é simplesmente uma boa prática, não uma estratégia exclusiva para acabar com a recessão.

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