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O primeiro calote a gente nunca esquece

Que atire a primeira pedra quem nunca levou um calote seja como freela ou como empresário. Talvez por mais sorte que juízo, eu quase levei vários, mas nunca fiquei sem receber. Em um dos “quases”, o aperto foi grande. Começo do escritório e o que você mais tem pela frente são contas. O final do mês vai chegando e você acaba fazendo muitas coisas que normalmente não faria.

Em um destes finais de mês, eu recebi uma ligação. Do outro lado da linha, um senhor pergunta se fazemos logomarcas. É claro. Tento descobrir para que seria a logomarca e ele acaba desconversando. Depois de alguns minutos, o segredo é revelado: um bordel. Eu fico em silêncio. A minha moral questiona. Fazer um trabalho que será pago por um dinheiro, digamos, um pouquinho sujo? Mas meu bolso logo responde: vamos em frente.

Reuniões para o briefing são feitas (sempre no escritório) e apresentamos duas propostas. Uma é aprovada. Desenvolvemos as aplicações (estritamente profissionais) e é chegada a hora de receber. Passam-se dias, semanas e nada do pagamento. Depois de dois meses tentando receber, tomo uma atitude: vou até o bordel. Durante o dia, é claro. Chego lá e vejo uma fila em frente à distinta casa.

Mas não é de clientes e sim de outros profissionais tentando também receber seus tostões. Eletricista, encanador, pedreiro, vendedor de móveis, vendedor de louças, vendedor de toalhas e eu, um designer. Os comentários são de que ninguém receberá. Alguns já falam em fazer permuta. Fico por alguns minutos e não há nenhuma movimentação por parte da empresa em receber os cobradores.
Resolvo ir embora. É aí que entra o destino (e o planejamento da URBS). Para retornar ao escritório teria que passar novamente em frente à casa.

Ao passar, vejo o cliente. Paro o carro quase no meio da rua e enfurecido, parto para a discussão. Ele compreende tudo e naquele momento descubro que ele não é o cliente e sim o gerente do bordel, que também era responsável pelas ações de marketing. Ele promete chamar o dono. Fico aguardando e então se abrem as portas do bordel. De lá saem dois “leões de chácara” e um rapaz muito mais jovem que eu, o dono. Ele questiona qual era o problema. Eu então explico que havia feito o serviço de criação da logomarca e precisava receber o valor combinado. Ele então pergunta:
– Que logomarca?
E eu respondo:
– Esta que está aplicada em sua fachada.
Ele retruca:
– Esta merda de logomarca?
E eu falo:
– Se é merda ou não eu não sei, mas o que importa é que você está utilizando-a.

Ele entra novamente no bordel e me deixa falando sozinho. Fico sem saber o que fazer e logo depois, sou convidado a entrar. Fico receoso, mas acabo aceitando o convite. Ao entrar, as portas se fecham e sou cercado pelos garbosos seguranças. Minha vida profissional começa a passar diante dos meus olhos. Logomarcas, manuais, materiais, embalagens. Meu fim seria este?

Sou conduzido a uma salinha escura. Lá o dono me aguarda. Tenta negociar um valor menor. Eu não concedo. Depois de algumas tentativas em vão, ele resolve efetuar o pagamento. Tira do bolso um maço, ou melhor, o maior bolo de dinheiro que eu já vi. Separa as cédulas, pede uma calculadora, e começa a somar cheques de terceiros. Dez reais, trinta e dois reais, vinte e quatro e cinquenta, sessenta e nove, e continua até chegar ao montante necessário para a quitação da dívida. Eu olho perplexo. Ele então me dá o “montinho” de cheques e fala:

– Ok, está tudo aí. Agora quero um recibo.
Eu respondo:
– Ok, assim que os cheques compensarem, eu encaminho o recibo.
Ele responde:
– Você é folgado em gordinho! Quero o recibo agora!

Sem escolha e com a certeza de que só sairia dali entregando o papel, assino embaixo. Saio com muito cuidado e ao chegar na rua, corro em direção ao meu carro. Vou direto para a primeira agência bancária que encontro e deposito tudo. Chego no escritório e acendo uma vela.
Recebi tudo, certinho. Afinal quem passaria um cheque sem fundo em um bordel. O que ficou desta lição? Canja de galinha e um bom contrato não fazem mal a ninguém. No Brasil, por conta da falta de orientação, muita, mas muita gente acredita que uma proposta assinada é suficiente para resolver uma situação como esta. Acreditam ainda que um contrato é algo complexo, que afugenta o cliente. Ora. Contratos são justamente responsáveis por fazer com que os direitos e deveres de ambas as partes não sejam colocados em um grande buraco negro (sem qualquer conotação sexual). Se você tem dúvida, procure uma associação profissional. Eles certamente poderão auxiliar nestas horas.

Ah! O bordel usa até hoje a identidade de merda.

E esta história e mais outras trinta, estão no livro Design Mundo Cão, escrito por André Beltrão.

Texto publicado na coluna Mundo com Design do site 1pg.

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Tulio Filho é designer gráfico e administrador de empresas. Atua no mercado de comunicação e design há 18 anos. Passou por diversas agências e escritórios, conquistando prêmios de âmbito nacional e internacional. Há 12 anos fundou a Blu Design e Comunicação onde atua como Diretor de Planejamento. É atual presidente da ProDesign>pr – Associação para o Design do Paraná e conselheiro do Centro de Design Paraná e foi eleito recentemente Empresário de Design do Ano pelo Prêmio Colunistas Paraná.

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